Blog de Bronze

Vertedero de ideas
hematocritico:

” Cura saliendo de la tarta en el cumpleaños de Jesús “ (Il aniversari picantoni dil cappo celestialli) Giotto

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” Cura saliendo de la tarta en el cumpleaños de Jesús “ (Il aniversari picantoni dil cappo celestialli) Giotto

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wanjavi2:

A fuckload of classic literature:

  1. 1984 by George Orwell
  2. A Christmas Carol by Charles Dickens
  3. A Portrait of the Artist as a Young Man by James Joyce
  4. A Tale of Two Cities by Charles Dickens
  5. Aesop’s Fables by Aesop
  6. Agnes Grey by Anne Brontë
  7. Alice’s Adventures in Wonderland by Lewis Caroll
  8. Andersen’s Fairy Tales by Hans Christian Andersen
  9. Anne of Green Gables by Lucy Maud Montgomery
  10. Anna Karenina by Leo Tolstoy
  11. Around the World in 80 Days by Jules Verne
  12. Beyond Good and Evil by Friedrich Nietzsche
  13. Bleak House by Charles Dickens
  14. Crime and Punishment by Fyodor Dostoevsky
  15. David Copperfield by Charles Dickens
  16. Down and Out in Paris and London by George Orwell
  17. Dracula by Bram Stoker
  18. Dubliners by James Joyce
  19. Emma by Jane Austen
  20. Erewhon by Samuel Butler
  21. For the Term of His Natural Life by Marcus Clarke
  22. Frankenstein by Mary Shelley
  23. Great Expectations by Charles Dickens
  24. Grimms Fairy Tales by the brothers Grimm
  25. Gulliver’s Travels by Jonathan Swift
  26. Heart of Darkness by Joseph Conrad
  27. Jane Eyre by Charlotte Bronte
  28. Kidnapped by Robert Louis Stevenson
  29. Lady Chatterly’s Lover by D. H. Lawrence
  30. Les Miserables by Victor Hugo
  31. Little Women by Louisa May Alcott
  32. Madame Bovary by Gustave Flaubert
  33. Middlemarch by George Eliot
  34. Moby Dick by Herman Melville
  35. Northanger Abbey by Jane Austen
  36. Nostromo: A Tale of the Seaboard by Joseph Conrad
  37. Notes from the Underground by Fyodor Dostoevsky
  38. Of Human Bondage by W. Somerset Maugham
  39. Oliver Twist by Charles Dickens
  40. Paradise Lost by John Milton
  41. Persuasion by Jane Austen
  42. Pollyanna by Eleanor H. Porter
  43. Pride and Prejudice by Jane Austen
  44. Robinson Crusoe by Daniel Defoe
  45. Sense and Sensibility, by Jane Austen
  46. Sons and Lovers by D. H. Lawrence
  47. Swanns Way by Marcel Proust
  48. Tarzan of the Apes by Edgar Rice Burroughs
  49. Tender is the Night by F. Scott Fitzgerald
  50. Tess of the d’Urbervilles by Thomas Hardy
  51. The Adventures of Huckleberry Finn by Mark Twain
  52. The Adventures of Tom Sawyer by Mark Twain
  53. The Brothers Karamazov, by Fyodor Dostoevsky
  54. The Great Gatsby
  55. The Hound of the Baskervilles by Arthur Conan Doyle
  56. The Idiot by Fyodor Dostoevsky
  57. The Iliad by Homer
  58. The Island of Doctor Moreau by H. G. Wells
  59. The Jungle Book by Rudyard Kipling
  60. The Last of the Mohicans by James Fenimore Cooper
  61. The Legend of Sleepy Hollow by Washington Irving
  62. The Odyssey by Homer
  63. The Merry Adventures of Robin Hood by Howard Pyle
  64. The Metamorphosis by Franz Kafka
  65. The Picture of Dorian Gray by Oscar Wilde
  66. The Portrait of a Lady by Henry James
  67. The Prince by Nicolo Machiavelli
  68. The Scarlet Pimpernel by Baroness Orczy
  69. The Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde by Robert Louis Stevenson
  70. The Tales of Mother Goose by Charles Perrault
  71. The Thirty Nine Steps by John Buchan
  72. The Three Musketeers by Alexandre Duma
  73. The Time Machine by H. G. Wells
  74. The Trial by Franz Kafka
  75. The War of the Worlds by H. G. Wells
  76. Treasure Island by Robert Louis Stevenson
  77. Ulysses by James Joyce
  78. Utopia by Sir Thomas More
  79. Vanity Fair by William Makepeace Thackeray
  80. Within A Budding Grove by Marcel Proust
  81. Women In Love by D. H. Lawrence
  82. Wuthering Heights by Emily Brontë

Click on the motherfucking Hypelinks bitches.

Here! Have a fuckload of modern literature, too!

  1. A Clockwork Orange - Anthony Burgess
  2. A Study In Scarlet - Sir Arthur Conan Doyle
  3. Abraham Lincoln, Vampire Hunter - Seth Grahame-Smith
  4. An Abundance of Katherines - John Green
  5. Artemis Fowl - Eoin Colfer
  6. Bossypants - Tina Fey
  7. Breakfast At Tiffany’s - Truman Capote
  8. Bridget Jones’s Diary - Helen Fielding
  9. Catcher In The Rye - J.D. Salinger
  10. Charlie And The Chocolate Factory - Roald Dahl
  11. City of Bones - Cassandra Clare
  12. Clockwork Angel - Cassandra Clare
  13. Damned - Chuck Palahniuk
  14. Darkly Dreaming Dexter - Jeff Lindsay
  15. Dead Until Dark - Charlaine Harris
  16. Ender’s Game - Orson Scott Card
  17. Everything Is Illuminated - Jonathan Safran Foer
  18. Extremely Loud and Incredibly Close - Jonathan Safran Foer
  19. Fahrenheit 451 - Ray Bradbury
  20. Fight Club - Chuck Palahniuk
  21. Go The Fuck To Sleep - Adam Mansbach
  22. I Am America (And So Can You!) - Stephen Colbert
  23. I Am Number Four - Pittacus Lore
  24. Inkheart - Cornelia Funke
  25. It - Stephen King
  26. Life of Pi - Yann Martel
  27. Lolita - Vladmir Nabokov
  28. Marked - Kristin Cast
  29. Memoirs Of A Geisha - Arthur Golden
  30. My Sister’s Keeper - Jodi Picoult
  31. Never Let Me Go - Kazuo Ishiguro
  32. One Day - David Nicholls
  33. Paper Towns - John Green
  34. Percy Jackson and the Olympians: The Lightening Thief - Rick Riordan
  35. Pretty Little Liars - Sara Shepard
  36. Slaughterhouse Five - Kurt Vonnegut
  37. Snow White And The Huntsman - Lily Blake
  38. The Book Thief - Markus Zusak
  39. The Bourne Identity - Robert Ludlum
  40. The Giver - Lois Lowry
  41. The Hunger Games - Suzanne Collins
  42. The Kite Runner - Khaled Hosseini
  43. The Lovely Bones - Alice Sebold
  44. The Notebook - Nicholas Sparks
  45. The Outsiders - S.E. Hinton
  46. The Perks of Being A Wallflower - Stephen Chbosky
  47. The Princess Diaries - Meg Cabot
  48. The Things They Carried - Tim O’Brien
  49. The Time Traveler’s Wife - Audrey Niffenegger
  50. The Ultimate Hitchhiker’s Guide To The Galaxy - Douglas Adams
  51. Tuesdays With Morrie - Mitch Albom
  52. Uglies - Scott Westerfeld
  53. Vampire Diaries: The Awakening - L.J. Smith
  54. Water For Elephants - Sara Gruen
  55. Wicked - Gregory Maguire

(Source: nachosauruz, via crisdias)

24.

sketchesdebronze:

Esta manhã, eu resolvi continuar a dormir e dormir e ignorar os urros agudos do despertador e dormir e dormir e sonhar. Chamaram-me para almoçar, mas limitei-me a revirar-me na cama com um resmungo e continuar a dormir e dormir e sonhar e dormir. No meio da tarde, porém, cansei-me de dormir e sonhar e despertei-me. Mas já era tarde demais para almoçar. 

Sketches de Bronze: 18.

sketchesdebronze:

Onde está o fim, senhor? Onde está a tua promessa de uma morte dolorosa, de uma mudança catastrófica que nos faria verdadeiramente chegar ao arrependimento, muito além dos charlatães e seus cultos, muito mais além que um pai com uma chinela ou uma vara de marmelo em riste; onde está o fogo…

Sketches de Bronze: 6.

sketchesdebronze:

Há algo mais deprimente que a autocrítica? Sim, a autocrítica traduzida em um código visual, como por exemplo, o grande rabisco ondulado a anular um diálogo inconcluso que eu havia começado a escrever antes deste texto. Já não lembro por quê, segundos atrás, me frustrei tanto com aquelas…

Sketches de Bronze: 3.

sketchesdebronze:

A garota olhou pra ele e ele desviou o olhar, incômodo. Por que ela olharia pra ele? Seria uma dessas olhadelas de único objetivo reparar em uma dessas distorções na beleza onírica do mundo que o tornam verossímil. Ele era uma delas, ele e seu corpo franzino, ele e seu rosto, ligeira porém…

Meu novo Tumblr com textos diarios curtos e variados. Sigam-no! 

O Lago e a Lapide


O Lago e a Lápide

 

Senti-me preso em um clichê literário. Ali, ajoelhado na terra úmida a sujar Minhas calças desgastadas enquanto sentia o relevo da pedra talhada. As lágrimas já haviam secado, os soluços já não persistiam e o calor das emoções transpiradas era, pouco a pouco, substituído pelo frio de um fim de tarde outonal.

Quando comecei a tremer, resolvi que era hora de abrir os olhos. A lápide à minha frente demorou para entrar em foco. Respirei fundo, tentando relaxar meus músculos, concentrando-me em desenrolar minha cauda ao invés do nome gravado toscamente na rocha cravada no gramado.

“Mar…” Não! Me obriguei a levantar-me de um salto e a encarar o lago. O lago de minha infância, meu lugar favorito. Mesmo depois de quase ter me afogado aquela vez, nunca deixei de visitar este lago. Não, justamente após eu ter quase me morrido aqui que ele se tornou meu lugar favorito. Como uma espécie de desafio. Desafio a quem? Nunca tive certeza. Só sei que várias coisas boas me aconteceram depois disso. Depois de minha renascença.

“Renascença”, sussurrei, o bosque atrás de mim respondendo com respeito ao luto, silenciosamente. Ela riria de mim, sempre me debochava quando tentava ser minimamente profundo. Talvez a culpa fosse minha, nunca fui bom com palavras. Afinal, ela também gostava do lago, ela entendia sua importância. Por isso continuei a trazê-la aqui depois da primeira vez. Mas isso tinha sido há muitos anos…

Deixei meu olhar cair do lago para a lápide, mas antes que pudesse ler qualquer coisa, me apressei em continuar até meus pés. Descalços, calosos, mais sujos do que o normal. Feridos e manchados de sangue. Sangue de outros que não eu. Hoje havia sido a primeira vez que pisava um cadáver, o cadáver de um inimigo. Havia menos glória naquilo do que meu pai me contara, principalmente pelo que carregava com minhas mãos.

Ergui minhas palmas até meu campo de visão. Uma crosta amarronzada, sangue extremamente seco, a cobria. Não meu sangue, nem sangue de outros desta vez. Era seu sangue, o sangue dela. Enquanto a carregava para longe da batalha, de nossa casa, de nosso vilarejo e a trazia para cá, enquanto tentava estancar a ferida. Levantei os olhos ligeiramente. A lápide. A homenagem improvisada em lágrimas, pobremente adornada com seu nome.

Não havia conseguido.

Lágrimas tentaram hidratar meus olhos ressecados em desespero. Mas antes, saltei três passos e mergulhei minhas mãos na água esverdeada do lago. As esfreguei, esfreguei, esfreguei até o verde ser tingido por uma névoa avermelhada e minhas mãos estarem limpas. As analisei. Minhas unhas continuavam imundas, profundamente maculadas pelo sabor metálico.

Soquei a superfície liquida enquanto tentava urrar. Minha voz, porém, falhara. Um débil ganido foi tudo o que consegui exclamar com minha frustração. Limitei-me a assistir a água voltar, lentamente, ao estado plácido de antes, meu reflexo, o reflexo de um cão cinzento, cada vez menos distorcido.

Consegui rir da metáfora. Marie sempre ria quando eu tentava brincar fazendo poesia sobre o lago.

Marie. Seu nome penetrou minha alma como ferro incandescente. Por quantas horas havia chorado aquele nome, naquele lugar isolado? Já anoitecia e o frio era difícil de ignorar.

Levantei-me e dei as costas ao lago. Não podia voltar ao vilarejo. Não havia vilarejo ao que voltar, tudo já queimava enquanto eu fugia de lá. Tampouco havia Marie para quem voltar. Ela sempre estaria ali, junto ao lago, esperando por mim. Olhei para trás uma última vez e sorri um sorriso de derrota, como aqueles de quando ela ganhava de mim com sua teimosia. Não havia mais nada a ser feito.

Peguei a espada que havia cravado na terra. Não limpei o sangue dela, apenas encaixei-a na bainha e adentrei novamente o bosque, deixando Marie com o lago e a lápide, à minha espera. 

Chuva Castanho-Escura


Eu estava correndo. Não costumo correr, sou o filho da puta mais sedentário do mundo, mas aquele dia eu estava correndo, correndo embaixo da chuva ainda por cima, como se tivesse oito anos no sitio de meus tios enquanto brincava com meus primos. Na verdade essa não é das melhores comparações, já que eu estava correndo sozinho e nunca antes havia estado tão longe da felicidade ignorante de si mesma daqueles dias chuvosos de sitio. Eu não saberia dizer se havia cedido momentaneamente aos prantos ao virar sua esquina; a opressão em meu peito e a dormência geral que me assaltavam poderia muito bem ser reflexo de minha baixa capacidade física. Mesmo meus olhos, entrecerrados trás meus óculos, não estavam protegidos das precipitações, então nunca saberei se entre os quinhentos ml de água de chuva que já haviam entrado em minha boca havia uma que outra lágrima em busca de refúgio. O caso é que não me importava, nem me importava meu aspecto quando pulei o pequeno portão que separava sua pequena varanda da rua, cruzei com dois saltos pouco graciosos o caminho de pedras até sua porta e esmurrei três vezes a madeira com o nó de meus dedos. Naquele momento, me estanquei, hesitei, deixei que o frio penetrasse minha mente por vez primeira desde que saíra de casa. A gélida sanidade conseguira desfazer-se da mordaça para berrar um espasmo de razão em minha nublada mente. O que ia dizer? Por que tinha que dizer o que iria dizer? Que direito eu tinha de dizer o que iria dizer?  A seca tormenta voltou a engrossar, porém, quando me veio a sensação de que estava demorando demais. Não sei o que me levou a voltar a golpear a porta, se a frustração ou o medo, mas sem duvidas foi a fúria o que me fez exclamar. Não lembro o que exclamei, algo genérico, algo equivocado semanticamente, mas que na hora sempre parece adequado. Fazia já alguns minutos que eu deixara de sentir frio, a única sensação física e palpável sendo a queimação de meu sistema respiratório por respirar aquele ar gélido e úmido, então a dor que senti em meu punho, o qual acabou por chocar com demasiada força contra a porta, esquentou meu corpo como um hálito dracônico, reconfortante. Foi enquanto eu olhava para meu punho avermelhado que ela abriu finalmente a porta. O calor reconfortante de meu punho pareceu insignificante comparado ao ódio que, em ebulição, bloqueou minha garganta ao sentir aqueles olhos de um cruel castanho-claro penetrar minha pele fria e ensopada, com receio e o que eu não pude distinguir entre nojo e pena. Talvez uma mistura dos dois. Talvez. A nova explosão magmática dissolveu o resto de consciência. Abri a boca para falar, ou berrar se meu diafragma se descontrolasse, mas um trovão tapou minhas palavras. Por um segundo, não, uma fração de segundo, vi o mundo em preto e branco. Bem, o mundo em negro, apenas ela, a pouca pele pálida que não estava tapada pelo roupão, radiando branco. Engasguei, voltei a hesitar. Não era justo, não era justo ela me olhar para meu deplorável estado de indignado daquela forma, me desarmar por excesso. Excesso de quê? O que era aquilo que apertava o nó em minha garganta? Era realmente ódio? Não, se fosse ódio, eu conseguiria vomitá-lo todo em um urro agonizante e libertador, em um insulto sujo e revitalizante, até mesmo, se o ódio fosse excessivo, com uma agressão, sem duvidas macular aquele rosto com um tapa ajudaria. Mas não, após as palavras frustradas por intervenção divina ou acaso kármico, apenas fiquei a observá-la, a recordá-la no dia anterior, naquela mesma manhã, no dia em que nos havíamos conhecido e todos os segundos nos quais me dediquei a montar seu ideal em minha mente. Um ideal quebrado, uma vívida ilusão que ainda residia naquela mirada castanho-escura. Desta vez tive certeza de que uma lágrima se misturava às remanescentes gotas de chuva em meu rosto e se perdia em minha barba rala.

 

-O que você quer? – Foi a pergunta.

 

O que eu queria. Queria sorrir pra ela e que ela sorrisse para mim de volta, numa confirmação de que nada havia acontecido. Queria que o ódio tomasse conta totalmente de mim, dilacerasse e engolisse de um bocado o remorso, a frustração e o restinho de amor, como o restinho de pão no fundo da xícara de café que você pega com uma colher e você tem um pequeno orgasmo ao saboreá-lo. Queria molhá-la com suas roupas para ter uma desculpa para livrar-lhe daquele roupão, envolve-la num beijo tão agressivo que nos faria perder o equilíbrio, cair sobre os azulejos e transar sem nos preocupar-nos de fechar a porta, pois nosso calor seria suficiente para aplacar aquele frio. Mas claro, eu não podia responder isso. Mas tampouco sabia o que mentir no lugar.

 

-Olha, eu já te pedi desculpas, não sei o que fazer… Nós simplesmente não… Não estávamos bem. Você sabe que não estávamos bem.

 

Ela mentia por mim, ocupava o silêncio por mim, calava a morte das gotas da chuva ao colidir contra o chão por mim. Com palavras frias, hesitantes, cheias de pena. Mais uma mentira para a coleção, só que desta vez repetida. A mentira não sofre uma mutação química, não importa quantas vezes você expô-la, apenas a traição se torna mais tangível. Deus, criador deste clichê ambulante, esta é a prova de tua existência, de tua malevolente existência. Aquelas palavras nublavam os olhos castanho-escuros, penetravam meus músculos e os faziam tremer. Meu diafragma subia e descia, minha respiração se condensava em uma efêmera resposta à súplica, à irritante súplica na forma como ela abraçava seu corpo envolto no roupão trás a porta entreaberta, trocando o peso de seu pequeno corpo de uma perna à outra. Uma resposta silenciosa, expectante pelo catártico momento em que eu já não amaria aquela criatura e pudesse voltar para casa para tomar um chá e torcer para não ser atacado por um resfriado que me inutilizasse o resto da semana. Abri a boca novamente, sentindo uma brecha na fraqueza de minhas cordas vocais, mas não passava de uma nova vontade de cair aos prantos.

 

-Por favor, vá pra casa… – Sentenciou ela, fechando novamente a porta.

 

Eu fiz menção de pará-la, mas minha própria paralisia me impediu de fazer qualquer outra coisa além de assistir como os olhos castanho-escuros se perdiam trás a madeira em um baque e um clique. Dois cliques, pensei, ao constatar que ela trancara a porta. Não consegui sorrir perante tamanha ironia em forma de metáfora. Eu ainda demoraria para sorrir de minha própria desgraça, talvez depois de cansar-me da autocomplacência, das noites insones, toda uma maratona de memento amoris que me tornaria mais forte. Esse pensamento, sim, foi capaz de me fazer esboçar um sorriso, um sorriso sarcástico ante minha situação, enquanto tentava imaginá-la ainda do outro lado da porta, olhando-me pelo olho mágico, talvez com lágrimas nos olhos por saber o erro que estava cometendo, que havia cometido e sem coragem de voltar atrás. Deixei que o ódio se apoderasse de mim novamente. O ódio era mais satisfatório, sempre é mais fácil odiar o outro. Sempre é mais fácil golpear a porta de tua ex uma última vez antes de voltar para debaixo da chuva de volta à tua casa. Até que este termina. Sempre termina. E os olhos castanho-escuros se tornam, novamente, o tesouro dos sonhos dos quais tu acorda às lágrimas, sem maior esperança, sem maior âncora à vida, que as lembranças.