Blog de Bronze

Vertedero de ideas

Por quê você precisa de mim?

-Por quê você precisa de mim? – Perguntou ela, deslizando-se pela cama, sem olhar para mim.

-Quê?

-Você  disse que precisa de mim. – Repetiu ela, deslizando seu indicador pela estampa do lençol. – Quero saber por quê.

-Achava que isso era evidente. 

-Não, tu não acha isso. – Realmente, eu não achava. – Quanto tempo faz que nos conhecemos?

Eu a encarei, desconcertado e ficando progressivamente vermelho.

-Esquece, não precisamos falar sobre…

-Há quanto tempo nos conhecemos? – Reiterou ela, contorcendo-se, mesclando-se com o lençol tal qual um croquete. 

-Não nos conhecemos.

-Exato! – Exclamou ela, pondo-se de joelhos à minha frente, coberta pelo lençol. 

Suspirei.

-Pode esquecer o que eu disse? 

-Não, porque VOCÊ não vai esquecer o que você disse. – Aninhou-se com a roupa de cama como se fosse uma freira, adotando uma expressão solene. 

-Me nego a continuar esta conversa. – Disse, deixando-me cair na cama e cobrindo meu próprio rosto com meu travesseiro. – Me nego. – Repeti.

-Você disse que precisa de mim. 

-Lá lá lá lá!

-Disse que precisa de mim contigo. Disse, mesmo sendo a coisa mais clichê do mundo, que sem mim, teu mundo é mais cinza, tua vida menos importante e o chocolate, mais necessário. 

-LÁ LÁ LÁ LÁ! 

-Mas por quê? 

Parei de cantarolar e deixei o travesseiro escorregar por meu rosto. 

-Por quê não?

-Posso citar cinquenta mil “porque nãos”, começando pela divisão de bens.

-Vá à merda. – Disse, jogando o travesseiro nela. Ela simplesmente saltou a um lado, caindo pesadamente na cama, fazendo com que as molas rangessem. O travesseiro colidiu contra a parede branca, manchada de sombras noturnas.

-Vamos, por quê minha presença em tua vida é tão necessária? Por quê dar tanto valor a algo que certamente acabará não dando certo?

-Isso é o que tu diz.

-Não, não, não. Isso é o que TU diz, lembre-se. 

-Suponho que seja um conceito com o qual fui criado. Não o de encontrar alguém e viver feliz para sempre. Estamos no século vinte e um, a mídia já não vende isso. 

-Então por quê?

-Porque o que ela sim vende é que todos temos alguém especial que não nos durará o suficiente, mas que nos acompanhará fielmente durante a parte mais difícil de nossas vidas.

-A plenitude sexual?

-A plenitude sexual. – Repeti. 

Ela sorriu e simulou com sua mão um carrinho de montanha-russa subindo, subindo, subindo e logo depois despencando com um assovio.

-Acho que é basicamente isso. Satisfeita?

-Não.

-Porra, como não?

-Se esse é o único motivo, por quê você simplesmente não o ignora?

Ela despiu-se do manto improvisado, revelando seu corpo nu. Aproximou seu rosto do meu para penetrar meu olhar, o qual eu tentava desviar. 

-Não sei…

Ela nada disse, apenas continuou a fitar-me.

-Porque eu não quero. 

-Bingo! – Exclamou, afastando-se novamente. Sentei-me na cama, abraçando meus joelhos sob o cobertor, apoiando meu dorso nu contra a parede fria. Senti minha nuca se arrepiando. – Creio que aprendemos uma cosa importante hoje.

-O quê?

-Você… Quer mesmo que eu diga ou o diz você?

Hesitei. Meu olhar encontrou o cobertor que me cobria e o padrão de sua estampa. Também estava manchado pela escuridão cinzenta de uma noite em seu quarto.

-Eu sou fraco. 

-Você é fraco.

-Mas… 

-Hmmmm? 

-Mas eu não o posso evitar. Ninguém pode.

-Muita gente pode. Muita gente o faz. 

-E nem por isso são mais felizes.

-Certo e errado. São tristes por outros motivos. Motivos mais importantes pra eles.

-E mais banais para mim.

-Certo. 

Silêncio. 

Ela deixou-se cair novamente na cama num baque surdo, e silêncio.

Escorreguei da parede, deitando-me novamente, olhos bem abertos. Ela deitada de cabeça para baixo, com os pés em meu peito, eu deitado como sempre havia deitado, no centro da cama, em oposição a ela. Inverso a ela. 

-Então, no final… O que eu devo fazer?

Silêncio e uma risadinha. Uma risadinha talvez cruel, talvez complacente, talvez divertida, talvez triste. Talvez apenas uma risadinha.

-Como eu vou saber, bobo? Sou apenas um arquétipo.

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